Espiritualidade e Sociedade



Humberto Schubert Coelho

>   Kant e Kardec, mais do que o K em comum

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Humberto Schubert Coelho
>   Kant e Kardec, mais do que o K em comum

 

Immanuel Kant, o maior de todos os filósofos da Era Moderna, tem uma recepção problemática por parte do Espiritismo. De uma lado ele atacou a metafísica das substâncias, que constitui um elemento prioritário da metafísica espírita (pense-se em fluido cósmico universal, perispírito, centros de força e coisas semelhantes), de outro lado ele fez uma crítica direta ao fenômeno da vidência, manifestado com grande alarde por outro Emanuel, o engenheiro e místico Swedenborg.

Kant errou, como todos, em alguns pontos, mas tomá-lo por antagonista é mais do que uma má estratégia filosófica: para quem queira sustentar alguma forma de racionalismo moderno, é suicídio.

Há boas razões, contudo, para afirmar que o uso de Kant por parte de adversários do Espiritismo é mais motivado por ignorância do que por qualquer outra justificativa, e o mesmo vale para o incômodo de pensadores espíritas em relação ao pensador de Königsberg.

Se o mundo viu um homem imparcial nos seus julgamentos, este foi o eremita e cientista prussiano, revolucionário tardio do pensamento. Ao ouvir falar de um vidente sueco que recebia mensagens dos espíritos e se afirmava capaz de se desdobrar em viagens astrais, Kant se absteve de ambas as reações típicas dos demais seres humanos; nem condenou como louco o vidente, nem o recebeu instantaneamente como taumaturgo fantástico. Dedicou-se, ao contrário, a uma terrivelmente trabalhosa análise que objetivava aclarar a possibilidade de ocorrência de tais fenômenos, e da validade dos relatos a eles ligados. O resultado é o famoso livro Sonhos de um visionário.

O livro, porém, não eliminou o problema. Alguns afirmavam ter visto nele a condenação definitiva do espiritualismo, pois o filósofo afirmava que tais condições jamais poderiam proporcionar conhecimento científico. Outros diziam ser Kant um defensor e mesmo um crente fervoroso nos fenômenos espirituais, já que ele afirmava serem muitos deles dignos de fé. Onde a verdade?

A célebre frase que futuras edições colocaram na contracapa dá o tom de ambiguidade, e a dimensão do drama:

Qual Filósofo não esteve uma vez entre, o juramento de uma pessoa sensata e convicta testemunha ocular, e a resistência interior de uma dúvida inolvidável? Deve ele negar completamente a veracidade de todos os fenômenos espirituais? O que o deve conduzir aos fundamentos de sua posição acerca deste assunto.[1]

Ao menos não se o pode acusar de não tratar seriamente a questão. O livro coleciona relatos de testemunhas dos fenômenos produzidos por Swedenborg, críticas e apologias de algumas das pessoas mais envolvidas no assunto, proporcionando grande erudição sobre o contexto da questão na época. Logo a mente sintética e crítica do pensador chega a uma definição conceitual extremamente econômica, subdividida em duas perguntas sem as quais nada se pode concluir sobre a mediunidade: 1- Qual é a natureza dos Espíritos? 2- Qual é a relevância objetiva de um testemunho pessoal, não verificável?

O próprio Swedenborg não possuía um método, como Kardec posteriormente viria a elaborar, sendo apenas um médium muito ostensivo e homem de grande instrução. Assim, Kant não tem como colher do vidente caracteres filosóficos que lhe permitam uma confrontação. Ele é obrigado a fazer todo o trabalho filosófico "de fora", sem a presença do médium e sem condições similares que lhe favorecessem a solução das mais pequenas dúvidas. Kardec teve o privilégio de operar com condições bem mais cômodas, e somente por esse motivo já seria de se esperar que reunisse observações mais precisas que as disponíveis a Kant.

Em suma, Swedenborg não tinha boas respostas para nenhuma das grandes questões levantadas por Kant, o que não fez com que o último desautorizasse imediatamente a doutrina do primeiro. O filósofo teve de trabalhar de maneira especulativa, usando os conceitos metafísicos vigentes de substância, alma, espírito, etc.

Em alemão a palavra para espírito, geist, significa também mente, e há um bloqueio cultural quanto a relacionar o espírito a um ser corpóreo, dotado de sensações, motricidade e localidade. Espírito é o intelecto, quando muito as memórias, e as expressões populares para aparições de espíritos são sempre interpretadas pejorativamente, relacionadas a fantasmagorias. Por isso, mas também por razões filosóficas, Kant julgava precária a definição de espíritos como seres perfeitamente corpóreos, com suas vestimentas e idiossincrasias, tais quais os relatados por Swedenborg.

Semelhantes imagens pareciam a Kant mais compatíveis com a definição de alma, que evoca sempre noções mais ou menos materiais, embora de uma materialidade sutil, fluídica ou etérea. A conclusão sensata de Kant é a seguinte: ou os espíritos são materiais e, portanto, mensuráveis e comandados pelo princípio mecânico de causa e efeito, ou são imateriais e, assim, não há como vê-los, ouvi-los ou mesmo pensá-los, pois o que não é material não possui forma ou substância para serem apreendidas.

Pois bem, os espíritos de Swedenborg tinham forma, impressionavam os sentidos e pareciam de todo modo materiais, mas isso os colocaria na classe dos fenômenos estudados pela ciência, o que não se verificava. Caímos no problema da medição, pois como os espíritos não podem ser observados com método científico, suas aparições exclusivas a um ou outro indivíduo não podem ser confirmadas como “conhecimento”, são apenas testemunhos.

Esse julgamento é puramente epistemológico, não estabelecendo valores de bom ou mau, certo e errado ou verídico e inverídico. Dizer que algo não é científico não significa dizer que seja falso, e dizer que as pessoas não podem considerar o relato de Swedenborg como conhecimento válido, não significa desautorizá-las de crer nesse relato e viver conforme ele.

Na verdade é exatamente isto o que Kant recomenda em Sonhos de um visionário: enquadrar os relatos como testemunhos que são. Ele reconhece que muitos dos relatos de videntes são plausíveis, respeitáveis do ponto de vista moral e proferidos por pessoas do mais inquestionável caráter. Ainda assim, nada do que dizem pode ser verificado, de modo que só lhes podemos conceder ou não nosso voto de fé.

Kant conclui que, a respeito dos contatos com os mortos, deve-se proceder como em qualquer ocasião em que um indivíduo profere ter vivenciado experiências que ninguém mais teve ou pode ter. A plateia deve julgar com sua própria razão e sensibilidade a plausibilidade do relato, a idoneidade da testemunha e chegar a uma conclusão subjetiva, com valor de convicção, sobre ele.

O filósofo tece até um exemplo alegórico bem-humorado: supõe-se que um náufrago chegasse a uma ilha deserta e lá visse coisas admiráveis. Improvisando uma jangada ele consegue escapar, mas não é capaz de dizer ao certo a localização da ilha, e outros não a puderam encontrar posteriormente. Os relatos do náufrago são sóbrios e detalhados, e ele é conhecido como ajuizado, consciencioso e honesto. Como devem proceder os ouvintes? Decerto alguns crerão no amigo, mas a ninguém ocorrerá acrescentar a narrativa aos livros de ciência.

Essa conclusão foi tida como fulminante contra as pretensões científicas do espiritismo pré-kardequiano, mas seria uma tolice temê-la ou empregá-la após o método desenvolvido pelo codificador. Aqueles que ainda hoje empregam o Sonhos de um visionário como crítica ao Espiritismo desconhecem os elementos mais básicos desta doutrina, enquanto que os espíritas que se sentem incomodados com a crítica kantiana falham em compreender o contexto, para o qual a conclusão do filósofo era corretíssima.

Médiuns houve muitos, fenômenos idem, sempre e em quantidade. Nada disso, entretanto, faz uma ciência, se não houver um cientista que organize os fenômenos segundo um método, e que os ponha à prova. Kardec foi o executor desse projeto árduo e ingrato de fundar uma ciência do oculto, ainda hoje estigmatizada, mas raramente criticada com rigor. Ele começou por duvidar, tão ou mais do que fizera Kant, dos fenômenos que se lhe apresentaram, e somente passou a tomá-los como base para sua nova ciência quanto respondeu satisfatoriamente aos dois problemas levantados por Kant.

Ao problema da substância, que desde o início atormentou Kardec, responderam os próprios fenômenos sob a força da repetição e da diversificação de experimentos. Ao princípio intelectual, que não pode responder à causalidade mecânica, nem apresentar forma ou mensurabilidade, e ao elemento material, dotado de todas estas características, observou-se o elemento intermediário que pode constituir o períspirito, um fluido ainda material, mas passivo de comando do espírito.

As qualidades sui generis do proposto “fluido cósmico universal”, escapando das categorias dualistas da metafísica, oferece uma resposta teórica para o questionamento acerca da impossibilidade de contato entre espíritos e seres encarnados. Mas o mais interessante ainda é o fato de esse conceito ter-se desenvolvido por experimentação, não por especulação metafísica, e essa experimentação só foi possível porque Kardec resolveu o segundo problema kantiano, o da validade dos relatos dos médiuns.

Certificado empiricamente da veracidade dos fenômenos, o codificador do Espiritismo (só agora com a letra maiúscula do nome próprio) não se precipitou em declarar como ciência a sua coletânea de fatos. Elaborou uma ferramenta metodológica digna dos fundadores das ciências humanas para averiguar a universalidade dos relatos. Só assim podia eliminar a subjetividade dos testemunhos individuais dos médiuns e atingir a almejada imparcialidade para a conceituação dos fenômenos espíritas e das ideias que os espíritos por eles transmitiam. A ciência material dos fenômenos físicos e psicológicos produzidos pelos médiuns foi amplamente reproduzida desde a época aos dias de hoje, mas a ciência pura proporcionada unicamente pelo controle universal do ensinamento dos espíritos, e que produziu um verdadeiro sistema crítico para a comunicação com o outro mundo, é o traço peculiar dos esforços de Kardec.

Há, portanto, duas ciências espíritas, uma localizada entre a física e a psicologia, pertinente aos fenômenos mediúnicos, e uma outra que se aproxima das ciências sociais, ainda que inteiramente diferenciada, pertinente aos processos de controle estatístico e crítico das ideias apresentadas pelos espíritos.

Não há como saber qual o grau de familiaridade de Kardec com as críticas de Kant, mas estas últimas são inteiramente compatíveis com os padrões de qualidade e inovações metodológicas apresentadas por Kardec. Não havendo outra crítica igualmente precisa do Espiritismo como método científico, estamos a aguardar de seus opositores análises tão judiciosas quanto a de Kant.


[1] Imanuel KANT. Träume eines Geistersehers. Pg. 5.

 

 

Fonte: http://filosofiaespiritismo.blogspot.com/2011/10/kant-e-kardec-mais-do-que-o-k-em-comum.html

 

 


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