Espiritualidade e Sociedade





Héctor Centrón

>   Os Castigos, as Penas e a Justiça Divina

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Héctor Centrón
>    Os Castigos, as Penas e a Justiça Divina

 

 

"Enquanto existir o mal entre os homens subsistirão os castigos;"

Platão, O Livro dos Espíritos, q. 1009

* * *

"O Espiritismo não exclui os castigos, que constituem a sanção das leis divinas impostas à humanidade".

Bezerra de Menezes, cap. LXXXIV, Estudos Filosóficos, Edicel, São Paulo, Brasil, 1977

 

 

É muito comum ler-se e escutar-se manifestações de espíritos que dizem que Deus, sendo a bondade infinita, não castiga — suas criaturas por faltas infringidas a suas leis; que somos nós mesmos quem nos castigamos com tais infrações. Também se costuma dizer que são as leis que nos punem, e não Deus.

Entretanto, isto que é tão comum tomar-se como uma verdade sobremaneira, longe está de ter seu fundamento nas obras da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, já que inúmeras passagens delas afirmam, categórica e claramente, o contrário, tanto manifestada pelo Mestre de Lyon, como pelos Espíritos Superiores que ditaram os ensinamentos básicos da Doutrina dos Espíritos.

Temos que obedecer então a esta distorção, confusão ou desentendimento entre a Doutrina e as expressões de tantos espíritas, adeptos e militantes destacados? É uma razão de forma ou de conceito?

No nosso entender, esta diferença entre as expressões meridianas de Kardec e dos Espíritos Superiores e das dos referidos espíritos, redunda em uma falsa concepção do que é castigo, motivo pelo qual trataremos de analisar o tema à luz dos textos das obras da codificação Espírita e os esclarecimentos de espíritas doutrinários e no espiritismo.

Primeiramente nos prenderemos às referências que existem nas obras fundamentais do Espiritismo, que são as autênticas revoluções copernicanas de nossa era contemporânea, conforme o dizer de Sir Oliver Lodge, já que devemos revalorizá-las como conhecimento doutrinário, ainda não superado, da Terceira Revelação, a síntese integral da ciência, filosofia e religião.

Kardec pergunta no parágrafo 737 do «O LIVRO DOS ESPÍRITOS»: Com que objetivo Deus castiga a humanidade com destruidoras calamidades? E os Espíritos respondem sem corrigi-lo: Para que progridam mais rápido. Já no parágrafo 101 da mesma obra Kardec assim se manifesta: "Deus, para castigá-los quer que assim creiam". E no parágrafo 258a , pergunta o Codificador: "Então é Deus quem impõe as tribulações da vida como castigo?" E no comentário ao parágrafo 962, do mesmo livro capital do Espiritismo, diz: "A idéia de que Deus nos dá da sua justiça e da sua bondade pela sabedoria de suas leis, não nos permite crer que o justo e o mau estejam num mesmo plano aos seus olhos, nem de duvidar que eles receberão um dia, um a recompensa outro o castigo, do bem ou do mal que tenham feito". No parágrafo 964, pergunta: "Deus tem necessidade de ocupar-se de cada um de nossos atos, para premiar-nos ou castigar-nos?" (o destaque é nosso).

Do mesmo modo segue manifestando-se Kardec em «O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO», V:6, assim como em «O CÉU E O INFERNO»..., VI-7 e 13, e em diversos parágrafos do capítulo VII, subitem "Código Penal da Vida Futura", primeira parte, ambas citadas, sobre o qual temos que prestar uma especial atenção a respeito do tema que nos ocupa.

Os espíritos utilizam em suas respostas e comunicações esse mesmo termo castigo, como no «O LIVRO DOS ESPÍRITOS», parágrafos 764, 781a., 859a e muito especialmente na mensagem mediúnica do parágrafo 1009, feita por Paulo, Apóstolo. Os espíritos também a fazem no «O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO», X:6, 17 e 18 e XII: 10 e XII; 3, e em «O CÉU E O INFERNO»..., segunda parte, capítulo VIII, comunicação do Espírito Erasto, "A pena de Talião", e na nota de Kardec, a comunicação do Espírito Claire Rivier.

Diante de todas estas citações a que deverá prender-se o leitor estudioso, é preciso fazer uma análise crítica e descobrir em que se fundamenta a afirmação tão ouvida de que Deus não castiga.

Léon Denis já assinalava em sua meritória obra «O PROBLEMA DO SER E DO DESTINO», cap. XXVI, "A Dor", pág. 356, edição Kier, Buenos Aires, 1981: "Allan Kardec foi reprovado por haver insistido demasiado em suas obras sobre castigo e a expiação. Isto tem levantado numerosas críticas. Eles nos dão — nos dizem —, uma falsa noção da ação divina; arrasta um excesso de penas incompatíveis com a suprema bondade" (o destaque é nosso). E agrava Denis; "Este juízo resulta de um exame demasiado superficial da obras do grande iniciador. A ideia, a expressão de castigo, excessiva talvez, se prenda a certas passagens isoladas, mal interpretadas em grande número de casos, se atenua e se apaga quando se estuda a obra inteira".

O problema, como vemos, não é novo. Ele deriva "de um exame demasiado superficial", como diz o Maestro de Foug, não temos dúvida.

Vemos as razões, prós e contras. Se diz a uma que Deus não castiga, mas sim suas Leis; também se manifesta que nos castigamos a nós mesmos — entre os quais se encontra Manuel Gonzáles Soriano, destacado filósofo espírita espanhol —, pois Deus não pode ocupar-se de penalizar a cada uma de suas criaturas.

Mas, dado que Deus é o Legislador Supremo e suas leis, a expressão de sua vontade, não podemos reconhecê-lo alheio ao que estabelece suas leis, como diz o parágrafo 617 do «O LIVRO DOS ESPÍRITOS»: "todas as leis são divinas, posto que Deus é o autor de todas as coisas". Em conseqüência, se as leis castigam, Deus castiga, como expressam os Espíritos Superiores que ditaram a Doutrina Espírita. E coerentemente com esta Sua Voz, na «A GRANDE SINTESE», obra mediúnica psicografada por Pietro Ubaldi, diz no capítulo VIII; "A lei é Deus".

Quanto ao argumento de que "Deus não castiga, nos castigamos a nós mesmos", isto pode ser aceito no sentido de o fazermos por nossa própria determinação e livre arbítrio ao infringir as leis e, consequentemente, sofremos a reação das mesmas por nossos atos; mas não podemos dizer por isso que nos castigamos a nós mesmos, pois se assim for, cremos que os espíritos rebeldes e iniciados no mal não sofreriam as penas, tão recalcitrantes e endurecidos, como observamos nas sessões de desobssessão. Por isto é que não podemos aceitar ao que afirma Gonzáles Soriano em seu belo livro «O ESPIRITISMO E A FILOSOFIA», quarta parte, VII, Editorial Victor Hugo, Buenos Aires, 1949: "Deus os premia. Se Deus castigar produzirá a pena, o desgosto, a dor, a desgraça, o desespero. (...) O castigo divino seria, por outro lado, a divina injustiça. (...) Quem erra e se castiga é o espírito a si mesmo.

Pois bem, para o Espiritismo, atendemos à codificação de Kardec, Deus premia e castiga, dado que existe pena, desgosto, dor, desgraça, desespero — Quem poderá duvidar neste mundo de expiações e provas? — e porque tudo isto é condizente com o estabelecido no "Código Penal da Vida Futura" — com caracteres de certificado — (ver o capítulo VII, primeira parte, de «O CÉU E O INFERNO»).

A este respeito os espíritos contestam no parágrafo 963 do «O LIVRO DOS ESPÍRITOS»: "Deus se ocupa de todos os seres que criou, por mais pequenos que eles sejam. Nada é demasiado para a sua bondade". E no parágrafo 964 do mesmo livro pergunta Kardec: "Tem Deus necessidade de ocupar-se de cada um de nossos atos, para premiar-nos ou castigar-nos? Acaso a maior parte de tais atos não são insignificantes para Ele? E respondem os Espíritos: "Deus possui leis que regem vossas ações. Se as violais, vossa é a culpa". Portanto é evidente que não nos castiguemos a nós mesmos, senão que isto obedece à imanência das leis divinas que atuam em nós mesmos, é dizer, por vontade e ditames de Deus. Por isso nos enseja Jesus com suas manifestações imortais: "Não se faça a minha vontade, senão a vossa" e "nenhum cabelo se move de nossas cabeças sem a vontade do Pai", assim como nos aconselha orar o Pai Nosso: "e perdoa-nos nossas dívidas..." e corroborando tudo isso, Kardec expressa no comentário ao parágrafo 962 do «O LIVRO DOS ESPÍRITOS» (livro síntese da Doutrina Espírita): "O sentimento inato que temos da justiça divina nos dá a intuição das penas e as recompensas futuras".

Em conseqüência: Deus não atua, nem pessoal nem diretamente sobre as suas criaturas, senão através do que estabelecem suas leis sábias, sua vontade, da mesma maneira que obra — simples analogia imperfeita — o legislador humano quando condena ou reprime mediante o que dispôs na lei que criou; mas tampouco é indiferente, pois Ele está presente em tudo o que ocorre no universo infinito. Ademais, Deus tem outro meio sobre humano que, igual às ações que cumprem aos espíritos na execução de seus mandamentos, nos guia e orienta em nosso íntimo, iluminando-nos a consciência. Diz o parágrafo 621 de «O LIVRO DOS ESPÍRITOS»: Onde está escrita a Lei de Deus? Resp. dos Esp. "Na consciência".

Como dissemos anteriormente, cremos que este mal-entendido existente em muitos espíritas vem do sentido ou conceito equivocado que se dá às palavras castigo e pena.

Diz o dicionário: castigo: pena que se impõe ao que cometeu um delito ou falta. E pena: castigo imposto por autoridade legítima a que cometeu um delito ou falta. Dor: tormento ou sentimento interior grande. Castigo: é um dos muitos termos derivados de agere, em latim, que significa executar. E pena, do latim poena em grego, de onde se origina o verbo punir, castigar.

Castigo, dor, pena, sofrimento e tormento são condições inerentes ao grau de inferioridade dos espíritos. A repulsa dos espíritos ao conceito de castigo de Deus provém de que a sanção se considera como um ato de vingança, de represália, mas nada mais errado que isso. De Deus, bondade infinita, não podemos provir essas atitudes para com suas criaturas. Diz Léon Denis na obra e capítulos supracitados: "Não é, pois, por vingança que a lei nos fere, e sim porque é bom e proveitoso sofrer, mesmo porque o sofrimento nos libera dando satisfação à consciência, cujo veredicto ela cumpre".

O ponto 764 de «O LIVRO DOS ESPÍRITOS» diz. "A lei de talião é a justiça de Deus; e Ele quem a aplica. Todos vós sofreis a cada instante essa lei, porque sois castigados por onde haveis pecado, nesta vida ou em outra" (o sublinhado é nosso). Denis diz que não é por vingança que a lei — quer dizer Deus — nos fere, e os espíritos contestam a Kardec que "a lei de talião é a justiça de Deus e Ele a aplica".

E seguimos citando a Denis de sua obra e capítulo já citados: "Sobre a Terra o sofrimento será físico e moral e constituirá um modo de reparação. Ele submergirá ao culpável em sua chama, para purificá-la; ele polirá, no laminador da prova, a alma deformada pelo mal". E Allan Kardec expressa no item 10 do "Código Penal da vida futura", de «O CÉU E O INFERNO», na primeira parte; "O espírito sofre a pena das infrações, lá no mundo espiritual, lá no mundo corporal. Todas as misérias, as vicissitudes que se sofrem na vida corporal, são conseqüência de nossas imperfeições ou expiações de faltas cometidas, sejam na existência presente, sejam nas precedentes". E o ponto 13 do mesmo código diz: O Deus exige para por término aos sofrimentos, é uma melhoria séria, efetiva, e uma volta sincera ao bem. Deste modo o espírito é sempre árbitro de sua própria sorte; pode prolongar seu sofrimento por sua persistência no mal; adoçá-lo ou abreviá-lo pelo seu esforço em fazer o bem. (...) Deus, que é justo, castiga ao mal enquanto existe; cessa de castigar quando o mal não existe ou, se quiser, sendo o mal moral, por si mesmo, uma causa de sofrimento, este sofrimento dura tão longo tempo como o mal subsiste; sua intensidade diminui à medida que o mal se debilita". E segue dizendo no item 14: "A duração do castigo, estando subordinada à melhora, resulta disto que o espírito que não se melhorar nunca, sofrerá sempre, e que, para ele, a pena será eterna".

Kardec diz em «O CÉU E O INFERNO»: V. 8, primeira parte: "O Espiritismo não vem pregar a penalidade futura, ao contrário, vem patenteá-la". E Dr. Fernando Ortiz, em sua obra «A FILOSOFIA DOS ESPÍRITAS - ESTUDO DE FILOSOFIA JURÍDICA», cap. XVIII "fundamentos da responsabilidade", diz: "O progresso do homem, quer dizer, o progresso do espírito, eis aí a finalidade psicológica da pena, assim neste mundo como no universo infinito. O progresso dos seres segundo as leis da natureza e da sociedade; eis aí a finalidade psicológica e subjetiva do castigo e das respectivas reações dolorosas contra os que desconhecem e menosprezam aquelas" (o sublinhado é nosso).

No cap. XIX, "Fundamento da Pena", da obra citada, publicada em espanhol pela Editora Victor Hugo, Buenos Aires, 1950, assim se manifesta o Dr. Ortiz: "A expiação que, como se diz, Allan Kardec exige em sua penalogia junto com o arrependimento e a reparação, é mais um procedimento, um modus corrigendi, que uma finalidade da pena, como o foi nas teorias retribuicionistas, já desacreditadas, por mais que os menores revivam na filosofia e sigam vivendo nas legislações". E no parágrafo seguinte acrescenta: "A penalidade deixa de ser um mal, para converter-se em um bem, em um tratamento de medicina social, à qual tem direito os delinqüentes, assim como outros enfermos têm hoje direito, nos povos civilizados, à assistência médica. A medicina social poderá inferir males ou penas, os quais sem embargo, como as amputações efetuadas pelos cirurgiões, levam em si mesmas uma finalidade de bem, de cura, de readaptação, de correção" (o sublinhado é nosso).

E prossegue manifestando-se o Dr. Ortiz: "O Espiritismo codificado por Allan Kardec está, pois, nessa grande corrente de opinião científica criminológica, e de acordo com ela explica a penalogia de seu Deus. E como bom correcionalista, esse Deus estabeleceu em além túmulo e também nesta encarnação terrena, um sistema de penalidade, de tratamento penal, de acordo com as idéias de correcionalismo contemporâneo, livre de certos lirismos de genial penalista alemão (se refere a Carlos David Augusto Roeder, 1806 - 1879), mas robustecida pelas considerações de positivismo evolucionista.

E revelando haver estudado profundamente a doutrina penal do Espiritismo, acrescenta o Dr. Ortiz: "Como se pode ver, o Espiritismo, sem deixar de ser correcionalista estima que, ao malvado tem que causar-lhe, a sua vez, como na antiga justiça simplesmente retribuitiva, um mal, ou melhor dito, (porque mal não é a palavra apropriada, dado o valor ético que dificilmente podemos separar dessa palavra) uma dor, um sofrimento, uma pena. Pena ou dor que eticamente não é um mal, senão um bem, porquanto só pode significar o meio psicológico necessário para produzir o arrependimento, ou seja a correção moral, o progresso ético do espírito. (...) É fé, que nessas teorias o Espiritismo está, como temos dado a entender, onde está, a ciência contemporânea" ( obra citada, cap. XXIV, "A Pena de Talião").

Ante essas opiniões de um especialista em matéria penal e criminológica — o que não se manifesta espírita —, perguntamos: "Como os espíritas, que temos na Doutrina dos Espíritos até um código penal de vida futura muito pouco estudado e conhecido, podemos ter tão mal conceito do castigo, da dor, do sofrimento e das penas, quando eles são as mesmas essências de dito código que expressa os meios de que se vale a justiça Divina e em razão do que existe, como diz o Dr. Ortiz, um espiritismo criminológico e penal?

Vemos como confluem e se harmonizam os conceitos penalistas do Dr. Ortiz, de Kardec e de Denis, já que este diz na obra e capítulo já citados, que o Espiritismo "constitui o remédio moral mais potente contra a dor. (...) Melhor que todas as outras doutrinas filosóficas, nos revela o grande papel do sofrimento e nos ensina aceitá-lo. Fazendo da dor um meio educativo ou reparador, nos mostra a justiça e o amor divino interferindo até em nossas provas e em nossos males. (...) O sofrimento não é mais que um corretivo de nossos abusos, de nossos erros, um estimulante para nossa evolução.

Deste modo, as leis soberanas se mostram perfeitamente justas e boas, visto que não infringem a ninguém penas inúteis e imerecidas. "O estudo do universo moral nos enche de admiração feita da potência que, por meio da dor, transforma pouco a pouco as forças do mal em forças do bem, faz sair do vício a virtude, do egoísmo o amor!" (o sublinhado é nosso).

Em «O LIVRO DOS ESPÍRITOS», de Kardec, parágrafo 1009, diz a comunicação de Paulo, o apóstolo: "Quem é, com efeito o culpado? Aquele que por uma desatenção, por um falso impulso da alma se aleija do objetivo da Criação, que consiste no harmonioso culto do belo e do bem, idealizados pelo arquétipo humano, pelo Enviado de Deus, por Jesus Cristo. E qual é o castigo? A natural conseqüência derivada desse falso impulso: uma soma de dores necessárias para que se canse de suas deformidades mediante a experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que excita a alma por meio da amargura, para que se reforme a si mesmo e retorne ao caminho da salvação. O objeto a que se propõe o castigo não é outro que a reabilitação, a liberação do escravo" (o sublinhado é nosso).

Depois de todas essas expressões, com que razão podemos dizer que Deus não castiga, quando a punição tem, como vemos, um sentido tão renovador e misericordioso! Observemos que na Terra, a dor impera sobre todos os seres viventes, desde que ele adote os caracteres de dor-mal, dor-renúncia, dor-arrependimento, dor-expiação, dor-reparação, dor-trabalho, dor-prova, dor-criação, dor-amor, pois eles constituem a dinâmica que impulsiona o processo evolutivo do Ser Imortal.

E Kardec, na "Observação" do "Código Penal da vida futura", item 20 de «O CÉU E O INFERNO»..., expressa: "Deus, ao criar uma alma sabe, com efeito, se em virtude de seu livre-arbítrio tomará o bom ou o mal caminho; sabe que será castigado, se fizer o mal; mas sabe também que este castigo temporário é um meio de fazê-la entrar em bom caminho, onde chegará cedo ou tarde". E no item 29 assim se manifesta: "A misericórdia de Deus é infinita, sem dúvida, mas ela não é cega. O culpado, a quem perdoa, não fica exonerado, e até que não haja satisfeito à justiça, sofre as conseqüências de suas faltas". E no item 30 prossegue; "As penas, sendo temporárias e subordinadas ao arrependimento e à reparação, que dependem da livre vontade do homem, são às vezes castigos e remédios que devem cicatrizar as feridas que ocasionam o mal. Os espíritos em castigo são, pois, não como condenados a presídio por um tempo, mas sim como enfermos em um hospital, que sofrem pela enfermidade que é a menor conseqüência de sua falta e dos remédios curativos dolorosos que necessitam" (o sublinhado é nosso).

Negar o castigo, a pena, o sofrimento, é como negar o mal, o que também se afirma erradamente, pois se eles são estados temporários que afetam o Ser imperfeito, nem por isso deixam de ser reais, positivos e necessários para servir à evolução deles, já que "precisa que o espírito consiga experiência, e para isto faz falta que conheça o bem e o mal. Por isso existe a união do espírito com o corpo", como diz «O LIVRO DOS ESPÍRITOS» no parágrafo 634. Como se conheceria o mal, perguntamos, se não existisse?

E sua voz, Ubaldi, em «A Grande Síntese», cap. LXXXI, afirma: "A dor não pode desaparecer sem a condição de que se pague a dívida à justiça que, no âmbito moral e social histórico e econômico, físico e químico, é sempre idêntica à lei, igual vontade, o mesmo Deus" (o sublinhado é nosso).

Com as próprias palavras com que finaliza o Mestre Kardec esse capítulo VII, primeira parte, de «O CÉU E O INFERNO»..., encerramos esta reflexão sumária nossa, sobre este aspecto tão controvertido; "Tal é a lei da Justiça Divina: a cada um segundo suas obras, assim no céu como na terra".

O castigo temporário é um meio de fazer compreender os erros e fazer entrar em bom caminho.

 

* * *

 

 

PESQUISA:

Deus é a inteligência suprema causa primária de todas as coisas.

Questão no 1 do «O LIVRO DOS ESPÍRITOS» obra codificada por Allan Kardec.

"Que é o castigo? A conseqüência natural, derivada desse falso movimento; uma certa soma de dores necessária a desgostá-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação. O castigo só tem por fim a reabilitação, a redenção. Querê-lo eterno, por uma falta não eterna, é negar-lhe toda a razão de ser.

"Oh! Em verdade vos digo, cessai, cessai de pôr em paralelo, na sua eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura. Fora criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o abrandamento gradual dos castigos e das penas pelas transgressões e consagrareis a unidade divina, tendo unidos o sentimento e a razão."

PAULO, apóstolo. in O Livro dos Espíritos, q. 1009, obra codificada por Allan Kardec

 

Vocabulário Espírita

 

Expiação, pena que sofrem os Espíritos como punição das faltas cometidas durante a vida corporal. A expiação, sofrimento moral, ocorre no estado de erraticidade, como o sofrimento físico ocorre no estado corporal. As vicissitudes e os tormentos da vida corporal são ao mesmo tempo, provas para o futuro e expiação do passado.

Penas eternas. Os Espíritos superiores nos ensinam que só o bem é eterno, porque é a essência de Deus, e que o mal terá um fim. Por conseqüência deste princípio, combatem a doutrina da eternidade da penas como contrária à idéia que Deus nos dá de sua justiça e de sua bondade. Mas a luz não se faz para os Espíritos senão proporcionalmente à sua elevação: nas classes inferiores suas idéias são ainda obscurecidas pela matéria; o futuro para eles está coberto por um véu. Não vêem senão o presente. Estão na posição de um homem que sobe uma montanha: no fundo do vale a neblina e as voltas do caminho limitam-lhe a vista; é-lhe preciso chegar ao cimo para descortinar todo o horizonte, avaliar o caminho que fez e o que lhe resta fazer. Os Espíritos imperfeitos, não divisando o termo de seus sofrimentos, julgam sofrer sempre, e este pensamento mesmo é um castigo para eles. Se, pois, certos Espíritos nos falam de penas eternas, é porque eles próprios crêem nelas em conseqüência de sua inferioridade.

Provas, vicissitudes da vida corporal pelas quais os Espíritos se purificam segundo a maneira pela qual as suportam. Segundo a doutrina espírita, o Espírito desprendido do corpo, reconhecendo sua imperfeição, escolhe ele próprio, por ato de seu livre arbítrio, o gênero de provas que julga mais próprio ao seu adiantamento e que sofrerá em sua nova existência. Se ele escolhe uma prova acima de suas forças, sucumbe, e seu adiantamento e retardado.

Textos extraídos do livro "Instruções práticas sobre as Manifestações Espíritas", obra de Allan Kardec

 

Outras obras

Qual a diferença entre provação e expiação?
A provação é a luta que ensina ao discípulo rebelde e preguiçoso a estrada do trabalho e da edificação espiritual. A expiação é a pena imposta ao malfeitor que comete um crime.
Emmanuel, no livro «O CONSOLADOR» 2a parte - cap. V - Provação - q. 246


Textos extraídos do livro "Nos Domínios da Mediunidade" — FEB — 14a edição — 1985
F. C. Xavier > Médium psicógrafo - André Luiz > Autor Espiritual - Cap. XV — Forças viciadas — pág. 139

... o que a vida começou, a morte continua... Esses nossos companheiros situaram a mente nos apetites mais baixos do mundo, alimentando-se com um tipo de emoções que os localiza na vizinhança da animalidade. Não obstante haverem freqüentado santuários religiosos, não se preocuparam em atender aos princípios da fé que abraçaram, acreditando que a existência devia ser para eles o culto de satisfações menos dignas, com a exaltação dos mais astuciosos e dos mais fortes. O chamamento da morte encontrou-os na esfera das impressões delituosas e escuras e, como é da Lei que cada alma receba da vida de conformidade com aquilo que dá, não encontram interesse senão nos lugares onde podem nutrir as ilusões que lhes são peculiares, porquanto, na posição em que se vêem, temem a verdade e abominam-na, procedendo como a coruja que foge à luz.

Meu colega (Hilário) fez um gesto de piedade e indagou:
— Entretanto, como se transformarão?

— Chegara o dia em que a própria Natureza lhes esvaziará o cálice — respondeu Aulus, convicto.
— Há mil processos de reajuste, no Universo Infinito em que se cumprem os Desígnios do Senhor, chamam-se eles aflição, desencanto, cansaço, tédio, sofrimento, cárcere...

— Contudo — ponderei —, tudo indica que esses Espíritos infortunados não se enfastiarão tão cedo da loucura em que se comprazem...

— Concordo plenamente — redargüiu o instrutor —, todavia, quando não se fatiguem, a Lei poderá conduzi-los a prisão regeneradora.

— Como?

A pergunta de Hilário ecoou, cristalina, e o Assistente deu-se pressa em explicar:

— Há dolorosas reencarnações que significam tremenda luta expiatória para as almas necrosadas no vício. Temos, por exemplo, o mongolismo, a hidrocefalia, a paralisia, a cegueira, a epilepsia secundária, o idiotismo, o aleijão de nascença e muitos outros recursos angustiosos, embora, mas necessários, e que podem funcionar, em benefício da mente desequilibrada, desde o berço, em plena fase infantil. Na maioria das vezes, semelhantes processos de cura prodigalizam bons resultados pelas provações obrigatórias que oferece...

— No entanto — comentei —, e se nossos irmãos encarnados visivelmente confiados à devassidão, resolvessem reconsiderar o próprio caminho?!... se voltassem à regularidade, através da renovação (transformação) mental com alicerces no bem?!...

— Ah! Isso seria ganhar tempo, recuperando a si mesmos e amparando com segurança os amigos desencarnados... Usando a alavanca da vontade, atingimos a realização de verdadeiros milagres... Entretanto, para isso, precisariam despender esforço heróico.


Cap. XXVII — Mediunidade transviada — pág. 254/5

— André, sua dúvida é fora de propósito. Você possui bastante experiência para saber que a dor é o grande ministro da Justiça Divina. Vivemos a nossa grande batalha de evolução. Quem foge ao trabalho sacrificial da frente, encontra a dor pela retaguarda. O Espírito pode confiar-se à inação, mobilizando delituosamente a vontade, contudo, lá vem um dia a tormenta, compelindo-o a agitar-se e a mover-se para entender os impositivos do progresso com mais segurança. Não adianta fugir da eternidade, porque o tempo, benfeitor do trabalho, é também o verdugo da inércia.


Cap. XXVII — Mediunidade transviada — pág. 256

— E esse delito ficará impune?

Aulus fixou a expressão de bom humor e respondeu:

— Não se preocupem demasiado. Quando o erro procede da ignorância bem-intencionada, a Lei prevê recursos indispensáveis ao esclarecimento justo no espaço e no tempo, porquanto a genuína caridade, sob qualquer título, é sempre venerável. Entretanto, se o abuso é deliberado, não faltará corrigenda.

 

 

* * *

 

 

Fonte: Matéria extraída do Jornal Correio Fraterno do ABC, dezembro de 1990 / http://www.aeradoespirito.net/

 

 

 



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