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Marcus Vinicius de Azevedo Braga  

>     Sobre a série da Netflix “Vida após a morte”

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Marcus Vinicius de Azevedo Braga  
>     Sobre a série da Netflix “Vida após a morte”


Com menos repercussão do que deveria no meio espírita, foi lançada no primeiro semestre do ainda conturbado 2021 a série “Vida após a morte”, um conjunto de seis episódios baseados no livro da autora estadunidense Leslie Kean, chamado “Surviving Death: A Journalist Investigates Evidence for an Afterlife” (saiba mais clicando aqui), um best-seller datado de 2017.

Digo pouca repercussão, pois temas relacionados à mediunidade tem mais atenção do público leigo, se comparado à prata da casa espírita. Mas a série, que não é espírita e nem se propõe a sê-lo, traz temas interessantes, um documentário de boa qualidade, começando o primeiro capítulo com a discussão da chamada experiência de quase morte, para um bloco de quatro episódios sobre temas relacionados à mediunidade, terminando com a questão da reencarnação, na linha da lembrança espontânea das vidas passadas. Discussões, infelizmente, empoeiradas na tribuna espírita.

O propósito destas linhas não é, de forma nenhuma, tentar enquadrar a referida série nos pressupostos espíritas, o que ela não se propõe a fazer. Traz esta, na forma de documentário, depoimentos e casos relacionados a temas sobre os quais a doutrina se debruça, mas que não são seu monopólio, buscando, de forma investigativa, trazer à mesa de discussões a questão científica e filosófica da existência de uma consciência fora do corpo e de que forma ela se comunica com os ditos vivos. O luto, e o fenômeno como uma viagem pessoal para lidar com ele, é a ideia central da série.

Para fins didáticos, o primeiro bloco se detém ao capítulo 1, que trata da Experiência de Quase Morte-EQM, e traz casuísticas recentes de situações que confirmam a existência de uma consciência fora do corpo, o espírito. São casos impressionantes e que mostram pessoas relatando experiências fora do corpo, tendo acesso a informações que elas não poderiam obter se não estivessem desdobradas.

Poucos se debruçam hoje no Brasil sobre a pesquisa desses fenômenos de EQM, Transcomunicação Instrumental, lembranças de outras vidas, ou, ainda, o próprio fenômeno mediúnico em si, com as ressalvas dos pioneiros do Núcleo de estudos de problemas espirituais e religiosos (Neper) e do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES), ambos ligados a universidades federais. A análise da imprensa espírita cotidianamente indica que esse assunto não orbita as falas e bocas, na linha, a meu ver, do já sei (creio) disso tudo, e nada mais resta a se deter sobre o tema.

O episódio 6 da série, que tratarei junto com o episódio 1, para deixar mais da discussão para o bloco central, também se detém nessa linha de experiências científicas laicas e traz os estudos de pesquisadores sobre lembranças de outras vidas, com relatos impressionantes. Os episódios 1 e 6 não diferem muito de documentários similares ao estilo Discovery Channel, com o mesmo padrão de qualidade técnica, e realmente tem muito a ensinar a todos nós.

Mas o foco deste artigo é se deter mesmo na análise do chamado segundo bloco, em uma divisão didática da série, que contempla os episódios 2 ao 5, e que versam sobre a mediunidade, com segmentação em fenômenos físicos e inteligentes, além de sinais de entes queridos e aparições. Uma visão de casos, desde uma chamada “escola de médiuns” na Holanda, até grupos de ajuda mútua para médiuns e para pessoas que perderam seus entes queridos e buscam com eles se reconectar. Para a análise desse bloco sobre mediunidade, vou me deter em sete pontos específicos e transversais aos episódios, que julguei interessantes nesse debate, respeitadas as limitações deste artigo.

Ei-los:

 

Fraude e mediunidade

O ceticismo e a questão de ser uma fraude perpassa todo o documentário, com um personagem, em especial, que busca testar os médiuns com experimentos pessoais, bem como entrevistas com pesquisadores de universidades, que sempre trazem a hipótese fraudulenta como considerável. Interessante que a série traga esse ceticismo e considere que a fraude é possível, pois Kardec já tinha essa postura desde o início em relação aos fenômenos, em especial aqueles mais extraordinários, e termina por ser uma linha interessante durante esses episódios, do crer desconfiando, que é sempre uma discussão atual, mesmo no Espiritismo.

A visão da mediunidade como um negócio

Nós, brasileiros, nos espantamos com isso, mas é nítido que a prática mediúnica, em especial nos Estados Unidos, desempenha um papel de fonte de renda complementar ou principal de seus praticantes. Isso não é novidade para quem acompanha séries e documentários daquele país. A clara postura dos próprios médiuns, que se veem como prestador de um serviço remunerado, e que tem como objetivo fornecer uma comunicação autêntica com o ente querido, uma prestação de serviço. Os que não são tão assim, como a escola de médiuns da Holanda, terminam por ter uma estrutura que se aproxima de uma igreja, nas falas e artefatos, usando inclusive a expressão “ministério”.

Falta de um suporte doutrinário na prática mediúnica

Não são citadas pelos médiuns obras de referência, e tudo parece muito empírico na construção do conhecimento destes sobre o fenômeno. A própria médium, da Holanda, com muita experiência, se mostra titubeante, com um conhecimento nitidamente oriundo de sua experiência pessoal e não do estudo de obras, de qualquer natureza, que tratem das questões do intercâmbio e das suas relações filosóficas, que poderiam não ser obras espíritas, mas qualquer outro conjunto doutrinário organizado que trate de questões similares.

Kardec, ausente só nominalmente

Sim, Kardec não é citado uma única vez. O mais próximo da literatura espírita conhecida citado é Camille Flammarion, e de forma transversal. Destaca-se a menção a Charles Richet, bem robusta. Não é citado o professor Rivail, mas muito do discutido em O Livro dos Médiuns surge nas conversas presentes nos episódios 2 a 5, em especial a questão dos fluidos e a separação de manifestações físicas e inteligentes. Tudo isso misturado com conceitos próprios daqueles locais, como quando a médium da Holanda enquadra a mediunidade como uma jornada de cura, ou no ensino de métodos para se conectar com seu ente querido desencarnado. Mas, em termos pilares básicos da doutrina, não se podem imputar ao que é mostrado discrepâncias relevantes.

Motivação precípua na busca de entes desencarnados

Uma coisa que é patente nesses quatro episódios é que a mediunidade é buscada, de forma precípua, por pessoas à procura de informações sobre seus entes desencarnados, lembrando a motivação das reuniões de psicografia de Chico Xavier. Não se vê uma busca dos espíritos para estudar, apreender conhecimento ou entender o fenômeno, como é a vida do lado de lá, salvo nos momentos em que surgem aqueles que são formalmente pesquisadores. A mediunidade é vista como uma forma de superação do fenômeno da morte pelo contato com os desencarnados conhecidos, buscando com isso um encontro consigo mesmo, na busca da paz.

Assuntos pouco discutidos no movimento espírita brasileiro

A psicografia é uma ilustre ausente, bem como os passes e a vidência, e tem pouco destaque a questão da psicofonia e da mediunidade de cura. Os temas da mediunidade clássicos no Espiritismo no Brasil são trocados na série por manifestações como a materialização, a voz direta, as aparições e fotografias de espíritos, muito comuns nas páginas da internet que se debruçam sobre o chamado sobrenatural. Interessante trazer esses temas fora de mão na literatura espírita, pois mostra que existem lacunas que merecem atenção e que o estudo é um dever de todos.

“Eu sou da América do Sul, eu sei, vocês não vão saber”

Com um pouco de etnocentrismo, muita gente gostaria que a equipe da Netflix fosse ao Brasil, falasse dos nossos conhecidos médiuns e do Espiritismo. Mas a série não é sobre Espiritismo, como fenômeno antropológico e religioso, e sim sobre um livro best-seller, trazendo uma visão focada nos fenômenos, como uma busca pessoal da superação da morte. Não é demais lembrar que a associação a uma doutrina reconhecida como religiosa iria na direção contrária do que se pretende na série, apesar da escola de médiuns da Holanda trazer em si um traço bem religioso. Mas, nesse ponto, a série trouxe uma reflexão a nós espíritas, de que não somos donos exclusivos do fenômeno mediúnico, como asseverou, aliás, o próprio Kardec.

A série é interessante, e quem não assistiu está perdendo uma grande oportunidade de aprendizado e reflexão. Deveria ser objeto de estudos e discussão nos grupos mediúnicos das casas espíritas. Entender o fenômeno, suas nuanças, é essencial para todo médium na sua jornada com essa faculdade durante a encarnação, e espanta saber que temas tão íntimos do Espiritismo tem espaço para tratamento em documentários, mas pouco nas tribunas e nas obras espíritas recentes.

O Espiritismo não existe para que percamos nosso tempo tentando enquadrar a realidade nele, como uma bula a classificar coisas como doutrinário ou não, na nossa mania de em tudo apor uma “visão espírita”. O Espiritismo é um conjunto de conhecimentos que nos permite interpretar a realidade, e se alimenta dela. Diante de programas como esses, ou ainda, de fenômenos que surgem nos jornais e na internet, o espírito kardequiano de curiosidade e ceticismo precisa invadir a nossa alma, e guiar o nosso aprendizado e reflexão, saindo das caixas nas quais nos aprisionamos, em especial em relação à mediunidade, questão ainda carente de um melhor tratamento pelas fileiras espíritas.

 

Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano15/725/especial.html

 

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Marcus Vinicius de Azevedo Braga é Pedagogo, evangelizador infantil e freqüenta o Grêmio Espírita Atualpa em Brasília- DF, tendo editado em 2001 o livro “Alegria de servir” pela FEB.



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