Espiritualidade e Sociedade



Marcus Vinicius de Azevedo Braga

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A Casa espírita roubou meu pai...

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Marcus Vinicius de Azevedo Braga
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A Casa espírita roubou meu pai...

 

 

(...) de mim. Acalme-se, prezado leitor. Não estamos falando de nenhum crime, à luz do Código Penal, cometido nas dependências de nossos templos religiosos. Estamos, sim, verbalizando o sentimento, que percebemos ao longo de nossa vida como evangelizador, presente em muitos jovens, filhos de trabalhadores da casa espírita.

Por vezes o indivíduo dedica-se às tarefas da casa e da causa, com afinco e determinação, privando cronicamente a sua família do convívio, por força de seus inúmeros compromissos. Além das demandas profissionais, arvora-se a encontrar no templo espírita seu segundo emprego, com chefe, cargos, horários e metas.

É alçado assim à condição de “trabalhador”, como se fosse um nível hierárquico acima do “frequentador”, como se a ele coubesse uma atribuição especial, acima dos outros. Quantos jogos de poder e de orgulho se escondem nessas construções?

Quando constituímos uma família, abraçamos ali responsabilidades afetivas que demandam tempo, tempo de conviver, de conversar, de sermos amigos e irmãos e por que não, para o lazer. É fundamental o lazer em família, darmos gargalhadas, brincarmos. Esses momentos marcam a história de nossos filhos, que nos veem como seus pais, únicos para eles.

Quando abraçamos diversas responsabilidades na Casa espírita, lembremos que não nos cabe fazer tudo. Por vezes, na busca do evento perfeito, sequiosos de cargos e não de encargos, relembrando o velho Chico Xavier, nos atolamos de atribuições, muitas delas burocráticas, constituindo a vivência espírita um fardo, um segundo emprego, estressante. Esquecemos que esse trabalho todo só terá valor se tiver reflexos na reforma íntima do trabalhador.

Essa ausência prolongada, com causa identificada, pode alimentar no jovem uma aversão à casa espírita, vendo ali a fonte de afastamento de seus pais, como um protesto por aquela situação, em uma atitude típica da juventude. Isso pode se refletir na falta do desejo de ir à casa espírita, na falta de envolvimento com as atividades da casa ou até na aversão completa.

Em hipótese nenhuma estou fazendo uma apologia à preguiça ou pregando que não venhamos a trabalhar na seara do bem. Pelo contrário, o que nos deve chamar a atenção é a motivação desse trabalho, essa ansiedade centralizadora de fazer tudo, às vezes à nossa maneira, e, pelo discurso da perfeição, abandonar o convívio dos nossos, afogados de atribuições.

A religião é uma ferramenta de nosso crescimento espiritual, tão valiosa quanto é a família. Esses institutos não devem concorrer entre si e sim cooperar. Temos de ter tempo de lazer, de conviver com nossos filhos, de conversar. Temos de ter tempo para o trabalho no bem. As tarefas da casa espírita devem crescer com a adesão do grupo e não de uns poucos que se matam para fazer as coisas. Se assim for, a casa não está envolvendo as pessoas e nos vemos nas antigas armadilhas do personalismo e do perfeccionismo.

No livro Conduta Espírita, o Espírito André Luiz afirma que:

Acima de todas as injunções e contingências de cada dia, conservar a fidelidade aos preceitos espíritas cristãos, sendo cônjuge generoso e melhor pai, filho dedicado e companheiro benevolente”.

Relembrando o nosso dever em todos os planos e não apenas no religioso. Esse modelo de dedicação intensa à religião, principalmente no plano formal, já existiu no mundo e constatamos pela história que ele não dá certo.

“Situar em posições distintas as próprias tarefas diante da família e da profissão, da Doutrina que abraça e da coletividade a que deve servir, atendendo a todas as obrigações com o necessário equilíbrio”.

Apontado o equilíbrio como a tônica de tudo. Se tens família, se tens filhos, deves dedicar a eles um tempo, não como obrigação de um dever, mas como momento de amor e de comunhão com esses Espíritos, dádivas nessa tua encarnação. Não te permitas ser roubado por múltiplas atribuições na casa, pela perfeição dos eventos, das instalações, dos documentos, em um novo emprego oriundo dessa visão empresarial de gerir a casa espírita. Pensemos na qualidade e não na quantidade. Não seremos questionados pelo muito que fizemos quando chegarmos ao lado de lá, e sim pelo como fizemos...

 

 

Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano4/162/marcus_braga.html

 

 

 

Marcus Vinicius de Azevedo Braga
Atua no movimento espírita na evangelização infantil, sendo também expositor. É colaborador assíduo do jornal Correio Espírita (RJ) e da revista eletrônica O Consolador (Paraná). É autor do livro Alegria de Servir (2001), publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB) e do Livro "Você sabe quem viu Jesus nascer" (2013), editado pela Editora Virtual O Consolador.




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