Rubem Alves

>    Princípio da Inércia; Cristalografia e relações probalísticas são falseáveis?

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Rubem Alves
>   Princípio da Inércia; Cristalografia e relações probalísticas são falseáveis? (Filosofia da Ciência - Introdução ao jogo e suas regras)


"A.2 Perguntei, no capítulo anterior, sobre o princípio da inércia. Ele é central na mecânica de Newton, e se encontra formulado como "axioma ou lei", juntamente com dois outros, em sua obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (1687)

"Todo corpo continua num estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja compelido a mudar tal estado por forças exercidas sobre ele."

Todo mundo já experimentou este princípio: quem levou um tombo num ônibus que parou repentinamente, ou caiu para frente ao descer de um veículo em movimento, ou viu um veículo colidir com outro, muito embora os freios estivessem aplicados até o fim. Ou num filme sobre viagens interplanetárias, em que o astronauta sai da nave e, para espanto, não é deixado para trás pelo veículo que viaja a uma velocidade de milhares de quilômetros por hora; o astronauta fica ali flutuando, como se estivesse numa piscina em que tudo está parado. Que todos tenhamos experimentado o princípio é um fato. O problema são as suas credenciais. Pode ele ser falsificado? Sob que condições?

Imaginemos o corpo A, em movimento retilíneo uniforme, inercial portanto, e que se desloca segundo a linha pontilhada, na direção indicada. Se ele mudar de direção sem a interferência de qualquer força, o princípio estará falsificado. Imaginemos que isto venha realmente a acontecer. Como se comportariam os cientistas? Será que um deles se atreveria a escrever um artigo dizendo possuir provas de que o princípio da inércia está errado? Ou não seria muito mais simples explicar a mudança de direção postulando a existência de uma força qualquer, necessária para elucidar o ocorrido? Desta forma o princípio seria preservado, o fenômeno "desviante" seria interpretado segundo as exigências do princípio, e o cientista evitaria cair em ridículo – o que é muito importante.

Volto a perguntar: sob que condições a falsificação do princípio da inércia se daria?

A.3 Um outro exemplo interessante vem da cristalografia e é sugerido por Polanyi. Vou transcrever suas palavras:

"Desde os tempos mais remotos os homens se sentiram fascinados por pedras de distintas formas. A regularidade é uma das características distintivas que agradam os olhos e estimulam a imaginação. Pedras, limitadas em muitos lados por superfícies planas que se encontravam em quinas regulares, atraíam a atenção, especialmente se, além disso, tivessem belas cores (...) Este primeiro fascínio sugeria uma significação maior e ainda oculta, que a mente primitiva expressou ao atribuir às gemas um poder mágico. Posteriormente, estimulou o estudo científico dos cristais, e estabeleceu e elaborou, em termos formais, todos os sistemas de avaliação que são inerentes a qualquer apreciação inteligente dos cristais. Tal sistema, em primeiro lugar, estabelece um ideal de forma, por meio do qual classifica os corpos sólidos em dois tipos: primeiro, aqueles que tendem a incorporar tal ideal e, por último, os outros nos quais nenhuma forma deste tipo é aparente. Os primeiros são os cristais, os últimos constituem os não cristais destituídos de forma, amorfos, como o vidro. A seguir, cada cristal individual é tomado como representante de um ideal de regularidade, sendo que todos os desvios do mesmo são considerados como imperfeições. (...) A cada tipo de cristal é, assim, atribuído um poliedro ideal diferente."

E é justamente aqui que Polanyi pergunta: que fatos poderiam falsificar tal critério de organização dos cristais? "Nenhum evento possível poderia falsificar esta teoria", pois cada contraprova não é considerada uma contraprova mas antes uma imperfeição – não do ideal geométrico – mas do corpo em questão. "Os fatos que não são descritos pela teoria não lhe criam dificuldade alguma, pois ela os considera irrelevantes para si mesma." Assim, estamos frente a declarações que circulam na ciência, declarações estas de enorme importância, que não possuem as credenciais de falsificabilidade. (Ver Polanyi, op. cit., p. 43-8). "Pode-se dizer da teoria cristalográfica que ela transcende a experiência a que ela se aplica. Mas esta transcendência, que torna uma teoria empírica irrefutável pela experiência, está presente em todas as formas de idealização. A teoria dos gases ideais não pode ser falsificada por meio de desvios observados em relação a ela..." (Idem, p. 47-8).

A.4 Declarações muito importantes no mundo da ciência e da vida prática são aquelas que exprimem relações probabilísticas. O que é uma relação probabilística? Se alguém saltar por uma janela, pode estar absolutamente certo de que cairá. Se alguém jogar um fósforo aceso num tambor de gasolina pode estar absolutamente certo de que o líquido pegará fogo. Mas se você girar a roleta, ou lançar um dado, ou puxar o gatilho de um revólver com uma bala apenas no tambor, não lhe será possível ter certeza do resultado.

Aqui surge a possibilidade do jogo e da aposta. Ninguém aposta que a gasolina pegará fogo, mas há pessoas que jogam roleta, dados e mesmo roleta russa. Quando não se tem certeza, é possível tomar riscos e fazer apostas.

Como é que se faz o cálculo das probabilidades? É simples. Tome um dado. Que chances há de que o 3 fique para cima em um lance? São seis as faces que podem ficar para cima, sendo que apenas uma, dentre elas, efetivamente se mostrará nesta posição. Sendo o 3 uma delas, dizemos que existe uma probabilidade de 1/6 de que o 3 apareça.

Imaginemos agora uma situação estranha. Lancei o dado 1.000 vezes. O 3 não apareceu nem uma única vez. É evidente que, neste caso, os fatos não confirmam as predições da teoria. Na verdade, um jogador que tivesse feito apostas no 3, confiado na teoria, teria perdido todo o seu dinheiro.

Será que, em decorrência disto, a previsão probabilística fica falsificada? A teoria será contestada como resultado dos dados empíricos obtidos nestes 1.000 lançamentos?

Não. De forma alguma. O jogador não questionará nem os matemáticos, nem suas previsões. Mas ficará certo de que o dado é viciado.
Pergunto: que evento ou eventos poderiam falsificar as relações probabilísticas?

A.5 E aí poderemos nos perguntar se é verdade que a falsificabilidade de uma declaração é precondição para que ela circule nos corredores da ciência. É possível que a história nos revele coisas que não coincidem com os critérios que inventamos."



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